Este texto, de José Castello, foi postado em “A literatura na poltrona”, blog de literatura de O Globo. Servirá como material de apoio na Oficina de Produção Textual. Espero que sirva de estímulo não só aos escritores neófito como aos artistas em geral! Boa leitura!
Andréa Terra
Graciliano com medo
Leio, um tanto perplexo, quase tonto, na correspondência de Graciliano Ramos: “Sou, talvez, no mundo o indivíduo que menos confiança tem em si mesmo. Lembras-te da folha seca da canção? ‘Vou para onde o vento me leva…’ Apenas nunca me julguei folha de rosa, ou de louro. Serei, quando muito, uma desgraçada folha de mandioca, como é razoável”. Releio para confirmar o que li. A sinceridade de Graciliano me atordoa, mas me fortalece.

A confissão é feita no ano de 1921, em carta ao amigo Mota Lima Filho. Graciliano está com 29 anos de idade. Já não é uma criança: seis anos depois será eleito prefeito de Palmeira dos Índios, Alagoas. Só 12 anos depois, já quarentão, publicará seu primeiro
livro, “Caetés”, de 1933. No ano seguinte, publica “São Bernardo” e mais dois anos depois, “Angústia”. Sua obra-prima, “Vida secas”, de 1938, prova definitiva de sua autoconfiança _ o que não exclui o medo, mas o emoldura _, foi publicada aos 46 anos.
Pois na mesma carta a Mota Lima Filho, escrita aos 29 anos de idade, ainda antes do primeiro livro, Graciliano diz ainda: “Muito me diverti com a extravagante idéia que tiveste de pedir-me alguma coisa para ser publicada aí. Escrever, hoje, com a minha idade? Que pensas de mim?” A certeza com que, antes dos trinta anos, ele afirma sua falta de vocação é um exemplo gritante do descompasso absoluto entre tempo e escrita. E, no entanto, logo depois _ desmentindo a si mesmo, traindo a si mesmo _ ele começaria a escrever sua grande obra. Tempo retorcido, tempo mais potente.
O sábio Graciliano desprezava não só o cerco do tempo, mas também os espartilhos asfixiantes da gramática. Em carta dos anos 1930 a sua segunda mulher, Heloísa, tenta convencê-la a escrever, ela também, um romance. Aconselha: “Escreva às escondidas, não é preciso ninguém saber que você se dedica a ocupações prejudiciais”. E mais à frente: “Faça uma tentativa à noite, quando o pessoal estiver dormindo”. Quanto ao suposto despreparo da mulher para a escrita literária, evoca a figura de George Sand, que “começou a escrever sem gramática”. Acrescenta: “Nossos escritores atuais, Zé Lins (do Rego) e Jorge (Amado) à frente, ignoram isso completamente”.
Um conselho, entre eles, creio, se destaca. É direto, simples, brutal: “Não imite ninguém, faça coisa sua”. Um escritor não deve nada a ninguém; se deve, ou pensa que deve, não escreve. Graciliano sabe que, com suas idéias, causa espanto à mulher, mas acredita sinceramente que a vocação literária vem de regiões distintas do bem escrever, da retórica afiada, do “bom preparo”. Vem de zonas escuras e até desprezíveis. Desmentindo o que pensou de si mesmo aos 29 anos, agora inclui a insegurança e o despreparo entre as condições fundamentais da escrita.
Sabia Graciliano que, sem uma boa dose de dúvída e de insegurança nada se chega a escrever. A segurança é uma trava. A certeza, uma coleira. Sem um desprezo pela “boa escrita” também não se consegue escrever. Fala, todo o tempo, do medo, que entrava não só sua mulher, mas a ele mesmo. Não se trata de “não ter medo”, mas de incluir o medo no que se faz. Sem medo, ninguém atravessa uma avenida _ pois não olhará para os lados, e correrá o risco de ser atropelado. Sem medo, já me disse uma voz muito sábia, ninguém escreve. O medo não é uma obstaculo à escrita, mas uma de suas mais importantes condições.
http://oglobo.globo.com/cultura/ta-na-rua-encenara-20-espetaculos-no-rio-ate-fim-de-2012-3768704


![j0426144[1]](http://recontandoconto.files.wordpress.com/2012/01/j04261441.gif?w=450)





















